Do Mito à Razão

“Os mitos foram à primeira expressão da eterna busca de compreensão do homem acerca do mundo e de si mesmo. Diferentes da ciência que busca o “como”, os mitos explicam “porque as coisas são assim”. É, por isso, a forma mais concreta da verdade” - Alan Watts

“O mito encarna a abordagem mais próxima da verdade absoluta que pode ser expressa em palavras” – Ananda Coomacaswany

“O mito é o estágio intermediário natural e indispensável entre a cognição inconsciente e a consciente. Compreendi subitamente o que significa viver com um mito e o que significa viver sem ele. Portanto, o homem que pensa que pode viver sem o mito, ou fora dele, é uma exceção. É como uma pessoa desenraizada, sem um verdadeiro vínculo com o passado, com a vida ancestral dentro dela, e com a vida contemporânea.” – Carl Gustav Jung

“Criar um mito, isto é, aventurar-se por trás da realidade dos sentidos com o intuito de encontrar uma realidade superior, é o sinal mais manifesto da grandeza da alma humana e a prova de sua capacidade de infinito crescimento e desenvolvimento.” – Louis Auguste Sabatier

Todo o conhecimento filosófico, religioso, artístico e, porque não, científico moderno provém do imaginário a respeito da criação do universo e de si mesmo. O mito encena, de uma maneira concisamente simbólica, porém profunda, os aspectos de uma realidade a qual está além da compreensão comum de uma época ou cultura. Portanto, o mito é a real ponte de conhecimento entre o homem e a realidade acerca do universo e de si mesmo.

Eu diria que o mito é o fator mais importante dentro dos aspectos históricos da humanidade, porque muito do conhecimento deriva do saber mitológico, que não é apenas religioso, mas também especulatório. Ou seja, em geral uma especulação coletiva a  respeito de algo desconhecido – ou não – torna-se um mito, e é nesse momento que entra em prática a função do logos (enquanto lógica/razão), que é estabelecer uma ideia racional aos padrões de uma época.

O conceito sobre Mito e Logos se evidenciou nas épocas áureas da filosofia grega. Nos meados no sec. VI a.C., o pensamento humano ocidental teria, supostamente, se libertado das “fantasias mitológicas” e adquirido um modo racional de se pensar, baseado na filosofia. Porém, a  relação entre mythos e logos é muito mais complexa que a definição atual aplicada à nossa mitologia.

O mito, que vem do próprio grego mythos e deriva dos verbos mytheo (contar, narrar, dissertar) e mytheyo (transmitir através da palavra), que por sua vez derivam da raiz indo-europeia meudh (lembrar com nostalgia, se preocupar com o que foi outrora). Ou seja, o mito em si transmite determinado conhecimento ancestral através da oralidade, diferentemente da concepção que temos hoje, de mito como sinônimo de algo irreal ou fantasioso. O mito em si tem uma razão fundamental de existência nas sociedades, o que contraria a posição de alguns ramos da filosofia.

Já o logos, hoje associado à razão ou estudo, perdeu seu sentido real e foi contraposto ao mito com o intuito de desvendá-lo (formando a mitologia), de torná-lo racional a partir da ideia de que o mito se opõe ao logos, assim como o imaginário se opõe ao lógico, o que em minha opinião é uma posição preconceituosa. Transformaram o costume de transmitir conhecimento através da oralidade como algo arcaico, atrasado e irracional.  Os próprios gregos adquiriram seu conhecimento, grande parte, dos egípcios (que eram, antes do domínio de Alexandre e da invasão árabe, povos essencialmente negros) que aliavam a transmissão através da oralidade e da escrita de forma primorosa.

O logos que, na verdade, é o “Verbo Divino”, “A Palavra de Deus Manifestada” perdeu seu sentido na tentativa de suplantar uma ideia própria de pensamento e concepção da verdade a respeito da existência, sobrepujando culturas e costumes de outros povos, como africanos, orientais e etc., que também tinham a sua própria forma, racional dentro de suas culturas, de evidenciar os mesmos fatos. Esse tipo de racionalismo grego a respeito dos mitos é tão somente a ideia a respeito das mesmas coisas adaptadas ao momento e a cultura daquele povo naquela época, tal qual em qualquer outra cultura, de qualquer outro povo, de qualquer outra época, porém, idealizado como algo superior através da própria palavra “logos”: a palavra divina manifestada. Infelizmente, ainda hoje para nós a ideia predominante é a da superioridade intelectual ocidental, talvez ainda, dentro de uma ideia preconceituosa de que outros povos, de outras culturas foram incapazes de ter ideias e conhecimentos salutares a respeito da existência, do homem e sua origem. O que impede a sociedade atual de aceitar, por exemplo, que os negros e os índios tinham sua própria escrita e conhecimentos avançadíssimos em astronomia, matemática, física e etc..

É claro que podem questionar-me, Homero talvez tenha sido o que mais evidenciou o logos como razão, apesar de sempre dizê-lo ser “O Verbo”. Entretando, a razão pode não ter apenas um sentido de racionalidade, mas também de causa. Talvez é aí que tenha se perdido o sentido da palavra dentro de algumas máximas e transformado o Verbo Divino, a origem-causa de toda existência, em simples estudo, baseado no mais puro racionalismo materialista.

Com a perda do sentido original da palavra e a divisão na ideia de superioridade ocidental através do logos, a filosofia moderna deixa passar em branco que mito e mitologia acabam se tornando sinônimos, uma vez que a definição de mito é a transmissão do conhecimento ou sabedoria ancestral – sobre a origem e a existência – através da oralidade e logos é o Verbo Divino, a Palavra de Deus Manifestada – que é a origem e razão de todas as coisas -, então, mitologia pode ser a transmissão de conhecimento identificado através de uma análise e investigação profunda de uma sabedoria ancestral a respeito da origem das coisas ou, ainda melhor, a transmissão do próprio Verbo Divino, e se dá principalmente através da oralidade.

Dessa maneira, a mitologia adquire um outro prisma, uma outra contemplação, além da mera opinião acadêmica absolutista, materialista e absurda de que o racionalismo ocidental – ainda que importante e necessário – é a única forma filosófica por onde se expressa a verdade de maneira racional, criando, dessa maneira, mais uma mitologia, a ser debatida e repensada para o futuro.

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Referências biliográficas:

VERNANT, Jean-Pierre. Origens do pensamento grego, 15.ed. Rio de Janeiro, Difel.
AEGER, Werner. Paidéia. São Paulo, Martins Fontes.
ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo, Perspectiva.
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia, São Paulo, Martins Fontes.
HAMMES, Itamar Luís. Mito e Racionalidade Científica, Rio Grande do Sul, PUC-RS.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Mito e Siginificado, Portugal, University of Toronto Press.
CAMPBELL, Joseph. O PODER DO MITO, São Paulo, Pallas
BIÃO, Alfredo. Obàtálà & Odùdúwà A Genese Yorubá.

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~ por João Paulo Rodrigues (Aralotum) em 25 de Junho de 2012.

3 Respostas to “Do Mito à Razão”

  1. Preciso muito saber qual o significado do nome Anauan, pois esse é o nome de meu filho. Alguém pode me ajudar?

    • Olá, Rosamgela!
      Muito legal saber que o nome do seu filho é Anauan. Anauan é um dos nomes antigos da Umbanda, se não, de um culto indígena de características semelhantes. Esse culto é inspirado no nome de um pássaro sagrado, nativo do Brasil, que canta e se chama Anauan.

  2. Ara-Anauan a todos!

    Nossa mano que texto excelente, gostei demais. Parabéns, muito claro e elucidativo.

    Parabéns

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